Depois de Tudo - P

 Depois de tudo o que aconteceu, voltei a cruzar-me contigo, não planeado, apenas inevitável. E, por mais que eu achasse que já tinha guardado tudo numa gaveta bem fechada, bastou olhar para ti para sentir um nó cá dentro, uma indecisão, vontade de perguntar como estavas, mas ao mesmo tempo falta de confiança para tal. Não era amor, nem sequer saudade pura. Era aquele tipo de sentimento que só aparece quando uma parte de nós ainda não entendeu o fim.

Talvez o destino tenha querido brincar comigo mais uma vez, pôr-te à minha frente quando eu já me convencia de que tinhas sido só uma história breve, bonita, mas breve. E, no entanto, lá estavas tu, a sorrir, a falar com os outros, como se nada tivesse ficado por dizer. E eu, que pensei que já tinha superado, percebi que afinal ainda havia uma pontinha de dor escondida entre as memórias boas.

Ver-te naquela noite fez-me perceber que o que mais me magoou não foi o fim, foi a forma como tudo ficou suspenso, sem explicação, sem um “adeus”, sem sequer um “fica bem”. E depois, o mundo girou, e tu voltaste a aparecer, só que já eras um estranho conhecido, alguém que trazia lembranças mas já não o mesmo olhar.

No meio da festa, enquanto toda a gente ria, eu senti o peso de uma ausência: a tua. Não física, porque estavas ali, mas emocional, porque percebi que a ligação que um dia senti já não estava mais. Talvez nunca tenha estado da mesma forma para ti. E esta conclusão dói.

E depois, quando percebi que podias estar a começar algo com outra pessoa alguém que conheço, que respeito, a minha única amiga solteira naquele contexto, doeu ainda mais. Não por querer-te de volta, mas por ter a confirmação de que foste mesmo embora, de que a tua história já seguiu o curso dela, sem nenhuma relação com a minha, enquanto eu ainda tropeço nas memórias.

Não te culpo. Não me culpo. Acho que só me entristece perceber que às vezes as coisas mais puras e bonitas que sentimos não têm continuidade. Que há pessoas que passam pela nossa vida apenas para nos lembrar do que é sentir borboletas outra vez, e depois seguem caminho.

Hoje só espero que este encontro, esta espécie de capítulo final, me ajude a aceitar. A olhar para ti e finalmente não sentir o coração apertar, mas apenas um carinho leve, de quem reconhece um nome que um dia fez sorrir.

Porque, no fundo, talvez a vida seja mesmo isso: encontrar pessoas que nos tocam o coração por um instante, e aprender a deixá-las ir sem perder a ternura da lembrança.

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