Quando o Amor Já Não Chega

Depois de tudo o que vivi — especialmente no amor — em 2023 só pedi uma coisa: um amor calmo. Um amor que não me deixasse em sobressalto, que não me fizesse duvidar de mim, que não me levasse a pôr tudo em causa. Queria leveza. Presença. Um espaço onde pudesse finalmente respirar.

Lembro-me bem: estava sozinha a ver o pôr do sol, a pôr a vida em perspetiva. E percebi, com um nó leve no peito: estou feliz. E depois, vieste tu. E no início, tudo parecia certo. Fluía. Começámos devagar, como se o tempo fosse nosso aliado. Havia cuidado, havia silêncio bom. Um início que parecia promissor.

Mas com o tempo, as tuas inseguranças começaram a infiltrar-se nas nossas rotinas. Pequenas coisas — tão pequenas — tornavam-se problemas. Um dia em que estive mais ocupada e não respondi logo tornou-se “ghosting”. Um mal-estar teu com as tuas amigas fez-te deixar-me sozinha numa festa. E eu, que só queria paz, ia ficando... porque achava que todos temos feridas. E as tuas também mereciam colo.

Fomos falando, fomos remendando. Tu estavas em terapia na altura e isso dava-me alguma esperança. Sentia que havia vontade, que estávamos juntos nesse esforço. E sim, houve uma altura em que me apaixonei mesmo. Sentia-me querida, acolhida, havia calor. Mas não durou.

Lembro-me de quando te pedi que viesses a um convívio com os meus amigos. Tu estavas desconfortável, e o teu desconforto colou-se a mim. Em vez de aproveitarmos, passei o dia tensa, a tentar equilibrar tudo sozinha. Depois, num jantar a dois, disseste-me coisas duras. Foste rude, gozaste comigo por um dia eu ter posto um limite — limite esse que nasceu de histórias antigas, de feridas mal fechadas. Tentei explicar, falei do meu ex, do que tinha vivido, do porquê de certas fronteiras. E tu? Reagiste com ciúmes, como se eu ainda vivesse lá atrás. Disseste “resolve isso”, como se o meu processo não estivesse em curso, como se o meu esforço não contasse. Passei a manhã seguinte — dia em que ia celebrar o meu aniversário com a minha família— a chorar. Nesse mesmo dia, prometeste-me voltar à terapia. Nunca voltaste.

E a verdade é que não foi só isso. Foi o padrão. Estávamos bem, depois distantes. Às vezes, mesmo ao teu lado, sentia que tu estavas noutro lugar qualquer. Pedia-te presença, e respondias “deixa-me estar com os meus pensamentos”. Como se amar não implicasse também estar. Escolher estar.

Mas sabes? O que me começou a doer mais não foram os gestos, mas as ausências. A estagnação. Eu sentia-me a andar para a frente — nos meus projetos, nos meus planos, até na ideia de comprar uma casa — e tu ficavas parado, imóvel. A tua insegurança era um peso constante nas nossas conversas, em tudo o que devia ser leve. Queria falar sobre o futuro, e só recebia dúvidas. Queria apoio, e não o encontrava. Tu não estavas lá. Não estavas verdadeiramente.

Foste ficando de fora das minhas coisas. Nunca mostraste interesse em conhecer os meus amigos, em pertencer ao meu mundo. E com o tempo, comecei a sentir-me sozinha, mesmo contigo ao lado. Gosto de ti, sim. Mas o amor não é suficiente quando é só um a remar.

A gota de água foi tão absurda quanto simbólica: discutimos porque, como profissional, não partilhava da tua opinião sobre um assunto. Tu baseavas-te em frases feitas, em sabedoria popular, e não aceitaste que eu — com formação, com experiência — pudesse ter outra visão. Não me ouviste. E quando voltei a tocar no assunto, disseste que eu só queria ter razão. Ali, percebi que o problema já nem era o tema. Era o facto de não acreditares em mim. De não me validares.

E, como tantas outras vezes, terminaste a discussão com um “tenho trauma com discussões”. Como se isso fosse suficiente para silenciar tudo o resto. E foi aí que compreendi: não era trauma. Era recusa. Era fuga. E tu fugiste — de ti, de nós, do compromisso de crescer. Desististe da terapia, aquela que começaste por tua iniciativa. E quando te perguntava, a tua resposta era: “Mas queres que faça terapia para ser perfeito?” E eu só te disse: “Desistires de ti também é desistires de nós.”

Esse foi o meu ultimato.

E agora chegou a hora de o cumprir.

Sim, ainda gosto de ti. Mas aprendi — com muito custo — que gostar não é o mesmo que viver bem. Que amar alguém não pode ser o mesmo que anular-me. Que se eu tenho de pedir apoio, presença, esforço... talvez já não esteja a receber amor. Pelo menos, não aquele que pedi lá atrás — o amor calmo. O que me permitisse viver.

E agora, volto a estar sozinha. Mas desta vez, sem peso. Porque finalmente percebo: pior do que terminar... é ficar onde já não se constrói nada.

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